sexta-feira, 1 de junho de 2018

Capitão Rodrigo, um amor bandido

Não lembro o dia exato nem o ano, mas lembro que era um dia ensolarado e resolvi sair do apartamento onde morava e ir ler embaixo de uma árvore. Fui até a estante da sala onde ficavam os livros do meu pai. Escolhi o primeiro volume de O Tempo e o Vento. O primeiro de quatro que me prenderam por um ano inteiro. Eu tinha uns 13 ou 14 anos e foi a primeira série que li. O fato de ter levado um ano lendo se deve, claro, à pouca idade que impedia o entendimento de certas passagens que pediam pesquisas a livros de História, minha outra paixão, além dos livros.
Fora isso, também me lembro da sedução que aquelas páginas exerciam sobre mim. A viagem a outras épocas, um passeio pela cultura gaúcha que também é, em parte, a do sul e que, portanto, me representa já que sou paranaense e compartilho de alguns sentimentos de identidade cultural com os gaúchos.
Para mim, o reconhecer-se num livro é um elemento de extrema importância porque, para além dos elementos estéticos subjetivos, penso que o sucesso de uma obra se relaciona, entre outros elementos, com a capacidade que ela tem de colocar o leitor dentro dela, de fazer com que ele se reconheça em alguma personagem e que se imagine percorrendo os mesmos trajetos, vivendo as mesmas experiências e sentindo os mesmos medos, esperanças, amores. Por isso alguns livros são considerados universais, porque possibilitam a comunhão de diferentes pessoas em torno de sensações passíveis de serem sentidas na realidade.
Assim me senti ao ler O Tempo e o Vento, sobretudo o capítulo dedicado ao Capitão Rodrigo Cambará, meu primeiro amor literário. 
Depois de anos, retornei ao texto que criou um dos personagens mais icônicos da literatura brasileira. Mais madura, com mais conhecimentos, me debrucei sobre o texto de Rodrigo com promessas de leituras extremamente objetivas. Elas permitiram visualizar elementos que não foram identificados pelos olhos apaixonados de uma adolescente de 14 anos. 
Um deles foi a percepção de que Rodrigo Cambará não é perfeito. Muito ao contrário. Ele tinha suas qualidades, mas também muitas falhas morais. Lutava por justiça social, mas não tratava de forma justa sua própria esposa. As ações imorais em relação à Bibiana são justamente o que mais denigre a imagem do personagem que  transita numa tênue divisória entre o heroísmo e o canalhismo.
Rodrigo Cambará é contraditório. Isso o faz um personagem crível porque muito próximo da realidade, pois o ser humano é contraditório. 
Hoje, chego à conclusão de que Capitão Rodrigo não é um herói. Ainda assim, não resisti aos seus encantos, pois o que não se pode negar é o seu caráter sedutor que não deixa ninguém ficar impune. Alguns o odeiam, outros o amam. Eu continuo no segundo grupo e faço das palavras de Lya Luft as minhas: "Ele parecia em arte confirmar as frases murmuradas por velhas mulheres: ' Homem não presta', ' Homem é tudo igual'. Talvez o meu Capitão fosse tudo isso. Mas era também promessa de aventura e audácia extremamente sedutoras...e como o amei com sua inquieta liberdade, e como sofri com Bibiana os abandonos e suas solidões e o seu amor. Muita perplexidade me causou o belo Capitão". Rodrigo Cambará é, assim, aquele amor bandido que você sabe que não pode levar a sério, mas que de vez em quando surge de maneira sedutora a solicitar a sua atenção.




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